"Não, essa história de violino não é exatamente o que eu penso" - refletiu Bertha Young, subindo a escada a correr, apalpando a bolsa à procura da chave - que tinha esquecido, como de costume - e sacudindo com ruído a caixa das cartas - "Não é o que eu penso, porque - "Obrigada, Mary" - entrou no hall. - "A nurse voltou?"
-Voltou, sim, senhora.
-E as frutas, vieram?.
-Vieram, sim senhora. Veio tudo.
-Traze as frutas para cá, sim? Quero arranjá-las antes de subir.
Fazia lusco-fusco na sala de jantar e estava bastante fresco. Mas mesmo assim Bertha tirou o casaco; não podia tolerar por mais tempo sua pressão; o ar frio caiu-lhe sobre os braços.
Em seu peito porém havia ainda aquela zona fulgurante e ardente - que emitia o chuveiro de minúsculas faíscas. Era quase insuportável. Ela mal ousava respirar com medo de avivar mais o fogo com seu sopro, e no entanto respirava, profundamente... Mal se aventurava a olhar para o espelho frio - mas olhou, e ele lhe mostrou a imagem de uma mulher radiante, de lábios trêmulos e sorridentes, com grandes olhos escuros e um ar de quem espera que aconteça alguma coisa... alguma coisa divina... que ela sabe que deve acontecer... infalivelmente."
(Trecho de Felicidade, de Katherine Mansfield)
(Berthe Morisot, The Cheval Glass, 1876)