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4 de ago. de 2011



"Os homens do teu planeta - disse o principezinho - cultivam cinco mil rosas num mesmo jardim...e não encontram o que procuram..."





15 de jun. de 2011


"A Sra. Woolf é tão simples; ela dá a impressão de algo grandioso. Ela é completamente natural: não usa quaisquer adornos externos – e se veste bastante mal. Em princípio, você pensa que ela é modesta; então, uma espécie de beleza espiritual se impõe a você, e você descobre uma fascinação em observá-la. Ela estava elegante na noite passada; ou seja, as meias de lã laranja foram substituídas por meias de seda amarela, mas ela ainda usou os escarpins. Ela é ao mesmo tempo desapaixonada e humana, silenciosa até mostrar que quer dizer algo, e então o faz supremamente bem. Ela é bastante velha. Raramente fiquei tão encantada por alguém antes, e acho que ela gosta de mim. Pelo menos, ela me convidou a Richmond, onde mora. Querido, quase perdi meu coração." (Vita Sackville-West, sobre Virginia Woolf)

2 de mai. de 2011

Benedetti

“As estações são pelo menos inverno, primavera e verão.(...) 
Graciela, quer dizer, minha mãe, repete e torna a repetir que tem uma outra estação chamada outono. Acho que pode ser, mas nunca vi. Graciela diz que no outono tem uma grande quantidade de folhas secas. É sempre bom que exista uma grande quantidade de alguma coisa, mesmo que seja no outono. O outono é a mais misteriosa das estações porque não faz nem frio nem calor e então as pessoas não sabem que roupa vestir. Deve ser por isso que nunca sei quando estou no outono. Se não faz frio, penso que é verão e se não faz calor penso que é inverno. E acaba que era o outono. Tenho roupa de inverno, verão e primavera, mas acho que não vão me servir para o outono. Lá onde meu pai está, o outono chegou bem agora e ele escreveu que está muito contente porque as folhas secas passam entre as grades e ele imagina que são cartinhas minhas.”
(Primavera num Espelho Partido, Mario Benedetti)






20 de mar. de 2011

"Espero que você ame teu bebê. Espero que seja um menino. Esse teu marido, assim espero, sempre te tratará bem, porque, se não, meu fantasma o atacará como uma nuvem de negra fumaça, como um gigante insano, e o destroçará nervo por nervo. E não tenha pena do C.Q. Era preciso escolher entre ele e H.H., e era desejável que H.H. existisse pelo menos alguns meses a mais a fim de que você pudesse viver para sempre nas mentes das futuras gerações. Estou pensando em bisões extintos e anjos, no mistério dos pigmentos duradouros, nos sonetos proféticos, no regúgio da arte. Porque essa é a única imortalidade que você e eu podemos partilhar, minha Lolita."
(Lolita - Vladimir Nabokov)
(Gustav Klimt, Mother and Child detail, 1905)
"E mesmo assim, sabia que o conhecimento e a sensatez se ocultavam no coração da Sra. Ramsay. Como, perguntara-se então, podia-se saber certas coisas sobre os outros, se eram assim tão fechados? Somente como uma abelha, atraída pela suavidade ou a acidez do ar - inatingíveis ao tato ou ao gosto - é que se podia frequentar a colmeia (...); as colmeias que eram as pessoas."
(Virginia Woolf, Rumo ao Farol)





25 de fev. de 2011

"Eu estava de costas para a porta, olhando para seu Chamun, interessado na reação dele, e tive a impressão de que a sombra do professor se elevava no espaço. Não me interessei em tirar a limpo porque já estou cansado de ver gente voando."  
(José J. Veiga, Sombras de Reis Barbudos)
"(...) aqui termino a história de Leniza.
Não a abandonei, mas como romancista, perdi-a. Fico, porém, quantas vezes, pensando nessa pobre alma tão fraca e miserável quanto a minha. Tremo: que será dela, no inevitável balanço da vida, se não descer do céu uma luz que ilumine o outro lado das suas vaidades?"
( Marques Rebêlo, A estrela sobe)
 



22 de jan. de 2011

"Hoje, nesta ilha...

"Hoje, nesta ilha, aconteceu um milagre: o verão se adiantou. Trouxe a cama para perto da piscina e tomei banho até bem tarde. Era impossível dormir. Dois ou três minutos fora bastavam para converter em suor a água que devia me proteger da espantosa calmaria. De madrugada, um gramofone me despertou. Não pude voltar ao museu para buscar as coisas. Fugi pelos barrancos. Estou nos baixios do sul, entre plantas aquáticas, indignado pelos mosquitos, com mar ou córregos imundos até a cintura, percebendo que antecipei absurdamente minha fuga. Acredito que aquela gente não veio me procurar; talvez não tenham me visto. Mas sigo meu destino; estou desprovido de tudo, confinado ao lugar mais parco, menos habitável da ilha, a pântanos que o mar suprime uma vez por semana.Escrevo isto para deixar testemunho do adverso milagre. Se em poucos dias não morrer afogado ou lutando por minha liberdade, espero escrever a Defesa perante sobreviventes e um Elogio de Malthus. Atacarei, nessas páginas, os devastadores das selvas e dos desertos; demonstrarei que o mundo, com o aperfeiçoamento das polícias, dos documentos, da imprensa, da radiotelefonia, das alfândegas, torna irreparável qualquer erro da justiça, é um inferno unânime para os perseguidos.Até agora não pude escrever nada senão esta folha que ontem eu não previa."
(A Invenção de Morel, Adolfo Bioy Casares)

18 de jan. de 2011

sempre Kundera

"No entanto, desta vez, adormeceu ao lado dela. De manhã percebeu que Tereza, que ainda dormia, segurava sua mão. Teriam ficado de mãos dadas a noite inteira? Era difícil de acreditar. Ela respirava profundamente enquanto dormia, segurava sua mão (com força: ele não conseguia se desvencilhar da pressão) e a pesadissima mala estava ao lado da cama. Não ousava soltar a mão do seu aperto, por temer acordá-la, e virou-se com muito cuidado para observá-la mais à vontade. Mais uma vez, ocorreu-lhe que Tereza era uma criança posta numa cesta untada com resina e abandonada ao sabor da corrente. Como deixar derivar para as águas impetuosas de um rio a cesta onde se abriga uma criança? Se a filha do Faraó não tivesse retirado das águas a cesta do pequeno Moisés, não teria havido o Velho Testamento e toda a nossa civilização! No começo de tantos mitos antigos, existe sempre alguém que salva uma criança abandonada. Se Pólibo não tivesse recolhido o pequeno Édipo, Sófocles não teria escrito sua mais bela tragédia! Tomas compreendeu então que as metáforas são perigosas. Não se brinca com as metáforas. O amor pode nascer de uma simples metátora.
(Milan Kundera, A insustentável leveza do ser)

(imagem do longa, com Juliette Binoche)

26 de dez. de 2010

"Ele ficou me encarando por um bom momento. Estávamos sentados ali, dois meninos debaixo de uma cerejeira, e, de repente, nos olhávamos, olhávamos de verdade. Foi então que aconteceu de novo: o rosto de Hassan mudou. Talvez não tenha mudado, não para valer, mas, de repente, tive a sensação de estar olhando para dois rostos: um deles, o que eu conhecia, aquele que era minha lembrança mais remota; e o outro, o segundo rosto, era o que estava escondido logo abaixo da superfície. Já tinha visto isso acontecer antes e aquilo sempre me deixava um pouco atordoado. Esse outro rosto só aparecia por uma fração de segundo, mas isso era o bastante para me deixar com a pertubadora sensação de que talvez o tivesse visto em algum lugar. Então, Hassan piscava e voltava a ser ele mesmo. Simplesmente Hassan."
( Khaled Hosseini, in O Caçador de Pipas)

21 de dez. de 2010

Calma!!

"CALMA, calma, também tudo não é assim escuridão e morte. Calma. Não é assim? Uma vez um menininho foi colher crisântemos perto da fonte, numa manhã de sol. Crisântemos? É, esses polpudos amarelos. Perto da fonte havia um rio escuro, dentro do rio havia um bicho medonho. Aí o menininho viu um crisântemo partido, falou ai, o pobrezinho está se quebrando todo, ai caiu dentro da fonte, ai vai andando pro rio, ai ai ai caiu no rio, eu vou rezar, ele vem até a margem, aí eu pego ele. Acontece que o bicho medonho estava espiando e pensou oi, o menininho vai pegar o crisântemo, oi que bom vai cair dentro da fonte, oi ainda não caiu, oi vem andando pela margem do rio, oi que bom bom vou matar a minha fome, oi é agora, eu vou rezar e o menininho vem pra minha boca. Oi veio. Mastigo, mastigo. Mas pensa, se você é o bicho medonho, você só tem que esperar menininhos nas margens do teu rio e devorá-los, se você é o crisântemo polpudo e amarelo, você só pode esperar ser colhido, se você é o menininho, você tem que ir sempre à procura do crisântemo e correr o risco. De ser devorado. Oi ai. Não há salvação."
(HILST, Hilda. Fluxo-floema.)

11 de dez. de 2010

"Se você me perguntar como é a gente daqui, serei forçado a responder: "A mesma de toda parte". Como a espécie humana é uniforme! A maioria sofre durante quase todo o seu tempo, apenas para poder viver, e os poucos lazeres que lhe restam são de tal modo cheios de preocupações, que ela procura todos os meios de aliviá-las. Oh, destino do homem!

Apesar disso, são excelentes pessoas. Muitas vezes chego a esquecer-me de mim mesmo para participar, com elas, dos prazeres acessíveis às criaturas humanas: uma alegre reunião em torno da mesa modestamente servida, onde reina a cordialidade mais franca; uma excursão de carro, um bailezinho improvisado etc. Sinto muito bem nesse meio, contanto que não me lembre de um mundo de aspirações adormecidas no mais íntimo do meu ser, entorpecendo-se pela inação, e que eu preciso ocultar com todo o cuidado. Ah! Como isso me aperta o coração! E, no entanto, ser incompreendido é o destino de todos aqueles que se parecem comigo." 

(Goethe, Os sofrimentos do jovem Werther)

17 de nov. de 2010

“Até então ele havia procurado mantê-la alheia às misérias irreparáveis, à injustiça e à repressão que diariamente presenciava e eram temas de conversa habituais entre os Leal. Considerava extraordinário que Irene navegasse inocente nesse mar de escolhos que afogava o país, ocupada somente com o pitoresco e o anedótico. Surpreendia-se ao vê-la pairando, sem se poluir no ar de suas boas intenções. Esse injustificado otimismo, essa limpa e fresca vitalidade de sua amiga revelavam-se balsâmicos para os tormentos que ele padecia por não poder mudar as coisas. Nesse dia, entretanto, teve a tentação de pegá-la pelos ombros e sacudi-la até pôr seus pés na terra e lhe abrir os olhos para a verdade. Mas ao contemplá-la junto ao muro de pedra de sua casa, com os braços carregados de flores silvestres para seus velhos e o cabelo revolto pela viagem na moto, intuiu que essa criatura não fora feita para as realidades sórdidas. Beijou-a na face o mais próximo possível da boca, desejando com paixão permanecer ao seu lado eternamente para protegê-la das sombras. Cheirava a ervas e tinha a pele fria. Soube que amá-la era seu destino inexorável”
(Isabel Allende, De amor e de sombra
             (John Wiliam Waterhouse, Psyche Entering Cupids Garden, 1905)

10 de nov. de 2010

"José Arcadio, o mais velho dos meninos, havia completado quatorze anos. Tinha a cabeça quadrada, o cabelo hirsuto e o gênio voluntarioso do pai. Ainda que tivesse o mesmo impulso de crescimento e fortaleza física, já então era evidente que carecia de imaginação. Foi concebido e dado à luz durante a penosa travessia da serra, antes da fundação de Macondo, e seus pais deram graças aos céus ao comprovar que não tinha nenhum órgão de animal. 
Aureliano, o primeiro ser humano que nasceu em Macondo, ia fazer seis anos em março. Era silencioso e retraído. Tinha chorado no ventre da mãe e nasceu com os olhos abertos. Enquanto lhe cortavam o umbigo movia a cabeça de um lado para o outro, reconhecendo as coisas do quarto, e examinava o rosto das pessoas com uma curiosidade sem assombro. Depois, indiferente aos que vinham conhecê-lo, manteve a atenção concentrada no teto de palmas, que parecia estar quase desabando sob a tremenda pressão da chuva. Úrsula não tornou a se lembrar da intensidade desse olhar até o dia em que o pequeno Aureliano, na idade de três anos, entrou na cozinha no momento em que ela retirava do fogão e punha na mesa uma panela de caldo fervente. O garoto, perplexo na porta, disse: "Vai cair." A panela estava posta bem no centro da mesa, mas, logo que o menino deu o aviso, iniciou um movimento irrevogável para a borda, como impulsionada por um dinamismo interior, e se espedaçou no chão. Úrsula, alarmada, contou o episódio ao marido, mas este o interpretou como um fenômeno natural. Sempre fora assim, alheio à existência dos filhos, em parte porque considerava a infância como um período de insuficiência mental, e em parte porque estava sempre absorto por demais nas suas próprias especulações quiméricas."
(García Márquez, Cem anos de solidão)

7 de nov. de 2010

com um sopro de selva


"Chamo-me Eva Luna, que quer dizer vida (...) Nasci no quarto dos fundos de uma casa sombria e cresci entre móveis antigos, livros em latim e múmias humanas, mas isso não me tornou melancólica, porque vim ao mundo com um sopro de selva na memória."
(Isabel Allende, Eva Luna)

22 de out. de 2010



"― Me dá um cigarro?
 
A voz era sumida, quase um sussurro. Permaneci na mesma posição em que me encontrava, frente ao mar, absorvido com ridículas lembranças.

O importuno pedinte insistia:

― Moço, oh! moço! Moço, me dá um cigarro?

Ainda com os olhos fixos na praia, resmunguei:

― Vá embora, moleque, senão chamo a polícia.

― Está bem moço. Não se zangue. E, por favor, saia da minha frente, que eu também gosto de ver o mar.

Exasperou-me a insolência de quem assim me tratava e virei-me, disposto a escorraçá-lo com um pontapé. 

Fui desarmado, entretanto. Diante de mim estava um coelhinho cinzento..." 

(trecho de Teleco, o Coelhinho, de Murilo Rubião)

16 de set. de 2010

E a raposa disse:
"(...) se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo..."

13 de set. de 2010

"Devia ser sábado, passava da meia-noite.
Ele sorriu para mim. E perguntou:
-Você vai para a Liberdade?
-Não, eu vou para o Paraíso. Ele sentou-se ao meu lado. E disse:
-Então eu vou com você." 
(C. F. Abreu, in Onde andará Dulce Veiga)

                                            (Van Gogh, Starry night over Rhone)

3 de set. de 2010

                                              (Gustav Klimt, Musik I, 1895)

"(...) A explicação de nós, do que fazemos e vivemos, é tão ridícula. No fim de contas apenas constatamos. Mas inventar o porquê, formular uma lei dá-nos a pequena ilusão de dominarmos o desconhecido. Não dominamos nada: conhecemos apenas a nossa fatalidade.
- A vida é estúpida, Ema, não tem "porquê". Os atos essenciais da vida realizamos com os olhos fechados: o prazer da boa música, ou da boa mesa, ou o prazer amoroso, ou a união com Deus. Até mesmo, se quiser, o próprio "descomer". Tudo o que é essencial é cego. Fechamos sempre os olhos. É por isso que no-los fecham quando morremos, se os deixamos abertos. (...)"
(Vergílio Ferreira, Alegria Breve)

12 de ago. de 2010

  "Como a vida é um movimento rápido, um fluir contínuo, mutante, como estamos sempre a nos despedir, indo a lugares, vendo pessoas, fazendo coisas. Só na chuva, às vezes, só quando a chuva cai, limitando seu raio de atuação que já é desgraçadamente reduzido, só quando você senta e fica escutando ao lado da janela, enquanto o ar frio e úmido sopra suave na sua nuca – só aí você pensa e sente aflição. Sente o dia escorrer, esquivo como lisas minhocas rosadas, por entre os dedos, e você analisa o que tem aos dezoito anos, pensa no modo como consegue, com dificuldade e concentração, trazer de volta um dia, um dia de sol, céu azul e aquarelas à beira-mar.
Consegue se recordar das observações sensuais que tornam aquele dia real, e pode se iludir – quase – pensando que seria capaz de retornar ao passado e reviver os dias e horas num curto período. Que nada, a busca do tempo passado é mais difícil do que você pensa, e o tempo presente acaba devorado por essas buscas melancólicas. 
O filme de seus dias e noites está enrolado dentro de você, bem apertado, para nunca mais ser passado – e os flashbacks ocasionais são vagos, desfocados, irreais, como se os visse através da neve que cai. 
Agora você começa a ficar com medo. Não crê em Deus nem na vida após a morte, portanto não pode contar com o paraíso quando sua alma inexistente ascender. Você acredita que tudo precisa vir do homem, e o homem é bem criativo em seus bons momentos – muito maduro, muito perceptivo para a sua idade – quantos anos tem, agora? Quantos milhares de anos? Contudo, mesmo nesta era de especialização, de variedade e complexidade infinita e de uma miríade de escolhas, o que você pega para si no saco de surpresas? Gatos tem nove vidas, diz o ditado. Você tem uma; e nalgum ponto da fina linha tênue de sua existência há um nó cego, um coágulo, a batida suspensa que marca o final deste individuo em particular que se chama “Eu”, “Você” e “Sylvia”. Então você fica pensando em como agir, como ser – e você considera valores e atitudes. 
No meio do relativismo e do desespero, esperando que as bombas comecem a cair, que o sangue corra (como corre agora no Iraque, no Afeganistão, na Rússia) e escorra bem na frente dos seus olhos, você quer saber (...) como se agarrar à terra, às sementes da relva e da vida."
(O Diario De Sylvia Plath - Sylvia Plath, 15 de julho de 1951)