25 de abr. de 2010

       "Ela tentava se ver através dos próprio corpo. Por isso, passava longos momentos diante do espelho. E como temia ser supreendida pela mãe, esse olhares traziam a marca de um vívio secreto.
        Não era a vaidade que atraía para o espelho, mas o espanto de se descobrir nele. Esquecia que tinha diante dos olhos o painel dos mecanismos corporais. Acreditava ver sua alma se revelando para ela sob os traços do rosto. Esquecia que o nariz é a extremidade de um tubo que leva ao ar aos pulmões. Via nela a expressão fiel de sua natureza.
        Contemplava-se demoradamente, e o que a contrariava às vezes era encontrar em seu rosto alguns traços da mãe. Então, olhava-se mais obstinadamente e dirigia sua vontade para se abstrair da fisionomia materna, fazer dela tábua rasa e só deixar subsistir em seus rosto aquilo que era ela mesma.
       Quando conseguia, era um momento inebriante: a alma subia à superficie do corpo, semelhante à tripulação que se lança do ventro do navio e invade o convés agitando os braços e cantando em direção ao céu."
 (trecho de A insustentável leveza do ser, Milan Kundera)