28 de jul. de 2010

"Era uma vez um certo Harry, chamado o Lobo da Estepe. Andava sobre duas pernas, usava roupas e era um homem, mas não obstante era também um lobo das estepes. Havia aprendido uma boa parte de tudo quanto as pessoas de bom entendimento podem aprender, e era bastante ponderado. O que não havia aprendido, entretanto, era o seguinte: estar contente consigo e com sua própria vida. Era incapaz disso, daí ser um homem descontente. Isso provinha, decerto, do fato de que, no fundo de seu coração, sabia sempre (ou julgava saber) que não era realmente um homem e sim um lobo das estepes.
A esse propósito poder-se-iam tecer longas considerações e até mesmo escrever livros; mas isso de nada valeria ao Lobo da Estepe, pois para ele era indiferente saber se o lobo se havia introduzido nele por encantamento, à força de pancada ou se era apenas uma fantasia de seu espírito. O que os outros pudessem pensar a este respeito ou até mesmo o que ele próprio pudesse pensar, em nada o afetaria, nem conseguiria afetar o lobo que morava em seu interior.O Lobo da Estepe tinha, portanto, duas naturezas, uma de homem e outra de lobo; tal era seu destino, e nem por isso tão singular e raro.
Deve haver muitos homens que tenham em si muito de cão ou de raposa, de peixe ou de serpente sem que com isso experimentem maiores dificuldades. Em tais casos, o homem e o peixe ou o homem e a raposa convivem normalmente e nenhum causa ao outro qualquer dano; ao contrário, um ajuda ao outro, e muito homem há que levou essa condição a tais extremos a ponto de dever sua felicidade mais à raposa ou ao macaco que nele havia, do que ao próprio homem. Tais fatos são bastante conhecidos. No caso de Harry, entretanto, o caso diferia (...). Bem, cada um tem seu fado e nenhum deles é leve."
(Herman Hesse, O Lobo das Estepes)

                                                   (Van Gogh, Cottages at Cordeville)

23 de jul. de 2010

O último pôr do sol





A onda ainda quebra na praia,
Espumas se misturam com o vento.
No dia em que ocê foi embora,
Eu fiquei sentindo saudades do que não foi
Lembrando até do que eu não vivi
pensando nós dois.

Eu lembro a concha em seu ouvido,
Trazendo o barulho do mar na areia.
No dia em que ocê foi embora,
Eu fiquei sozinho olhando o sol morrer
Por entre as ruínas de santa cruz lembrando nós dois

Os edifícios abandonados,
As estradas sem ninguém,
Óleo queimado, as vigas na areia,
A lua nascendo por entre os fios dos teus cabelos,
Por entre os dedos da minha mão passaram certezas e dúvidas

Pois no dia em que ocê foi embora,
Eu fiquei sozinho no mundo, sem ter ninguém,
O último homem no dia em que o sol morreu

Uma árvore sem folhas e galhos ainda é considerada uma árvore?

"Uma árvore sem folhas e galhos ainda é considerada uma árvore? O coração morre lentamente, perdendo as esperanças como folhas. Até que, um dia, nada resta. Nenhuma esperança. Não resta nada.
(...)
Ela se pinta para esconder o seu rosto. Seus olhos são águas profundas. O resto é escuridão. O resto é segredo.
(...)
Não podemos pedir ao sol, mais sol.
Nem à chuva, menos chuva.
Mesmo assim, conhecer a bondade, depois de tanta maldade, ver que uma menina mais corajosa do que ela imaginava teria suas preces atendidas…
Isso não é o que chamamos de felicidade?
Afinal, estas não são as memórias de uma Imperatriz, nem de uma Rainha. Estas são memórias de um outro tipo”
(Trecho do filme Memórias de uma Gueixa)


                             (Gustav Klimt, The Tree of Life, 1909)

20 de jul. de 2010

Ça sert à quoi


Ça sert à quoi, à quoi tout ça
Ce beau jardin si tu n'le vois pas
Pour qui pour quoi toutes ces fleurs
Autour de toi
Ça sert à quoi, à quoi dis-moi
Si t'as le monde rien que pour toi
Ça sert à quoi si ça ne sert à rien
Ce que l'on a
"Enquanto uma chora, outra ri; é a lei do mundo, meu rico senhor; é a perfeição universal. Tudo chorando seria monótono, tudo rindo cansativo, mas uma boa distribuição de lágrimas e polcas, soluços e sarabandas, acaba por trazer à alma do mundo a variedade necessária, e faz-se o equilíbrio da vida." 
(Machado de Assis, Quincas Borba)

 
“ (...) e assim, involuntariamente, nos mais diversos momentos, ao andar pela estrada de Bropton, ou ao escovar os cabelos, ela se via pintando esse quadro, passando os olhos por ele, ou tentando desatar esse nó na sua imaginação. Mas havia uma enorme diferença entre conjecturar planos no ar, longe da tela, e efetivamente pegar o pincel e dar o primeiro toque”
(Virginia Woolf, Ao Farol)

9 de jul. de 2010

"Isso faz 24 anos, e, mesmo assim, sempre que penso naquele momento em que, chicoteada pela ironia dele, fiquei exposta diante de mil pessoas estranhas, ainda sinto o sangue congelar nas veias. E volto a sentir, assustada, uma substância fraca, rala e gelatinosa que deve existir, isso que fanfarronando chamamos alma, espírito, emoção, o que chamamos dores, pois tudo isso, mesmo desmedido, não consegue rebentar inteiramente o corpo torturado - porque a gente supera essas horas com o sangue que continua a pulsar, em vez de morrer e tombar como uma árvore atingida por um raio. Só por um instante essa dor atravessou minhas juntas, fazendo-me cair sobre aquele banco sufocada, embotada e com uma sensação quase prazerosa de ter de morrer. Mas, como acabei de dizer, toda dor é covarde, recua diante do chamado mais forte da vida, mais solidamente instalada em nossa carne do que toda a paixão que nosso espírito possa ter pela morte. Eu mesma não entendo, depois de ter esmagados os meus sentimentos: mas sim, eu me levantei de novo, naturalmente sem saber o que fazer."
( Stefan Zweig, 24 horas na vida de uma mulher)
''E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder:
- É a hora da embriaguez! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas! De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.''
(Charles Baudelaire)

4 de jul. de 2010

"Em todos os lugares para onde vou, há pessoas esperando executar suas formas de caridade em mim. Todos esses anos e eu ainda trago o ar de um órfão. Elas  me tratam como as crianças de Jakkalsdrif, que ainda são muito jovens para ser culpadas de qualquer coisa. Em troca, elas esperam apenas um gaguejo de agradecimento das crianças. De mim, elas esperam mais, porque estive mais tempo no mundo. Elas desejam que eu abra meu coração e conte a história de uma vida vivida em jaulas. Elas querem ouvir sobre todas as jaulas nas quais vivi como se eu fosse um papagaio, ou um rato, ou um macaco. Se eu tivesse aprendido a contar histórias em Huis Norenius ao invés de descascar batatas e a fazer somas, se tivessem feito com que praticasse a história da minha vida todos os dias, vigiando-me com uma vara até que eu conseguisse fazer isso sem cometer erros, eu poderia satisfazê-las. Eu teria contado a história de uma vida em prisões nas quais eu permanecia dia após dia, ano após ano, com a testa contra a grade com os olhos perdidos na distância, sonhando com experiências que nunca teria, onde os guardas me xingavam e chutavam meu traseiro e me mandavam- sfregar o chão. Quando minha história terminasse, as pessoas balançariam a cabeça, teriam pena, sentiriam raiva e ofereceriam comida e bebida; as mulheres me levariam para suas camas e me acalentariam no escuro. Entretanto, a verdade é que sempre fui um jardineiro, primeiro para a Câmara, depois para mim mesmo, e jardineiros passam seu tempo com o nariz no chão."
( J.M. Coetzee,Vida e Época de Michael K)
"A caminho daqui vi coisas maravilhosas para pintar, mas nunca soube pintar. Sei de coisas maravilhosas para escrever e nem sequer consigo escrever uma carta que não seja estúpida. Nunca quis ser pintora nem escritora até chegar a este país. Agora, é como estar-se sempre esfomeado e não haver maneira de o remediar." 
(Ernest Hemingway, O Jardim do Éden )

1 de jul. de 2010

Libertango!

"Acontece com a franqueza mal administrada o mesmo que com certos remédios: ela aflige, atormenta inutilmente, e realiza dolorosamente o que a bajulação consegue com agrados. (...) É preciso que a franqueza seja temperada pela doçura, e que os termos por ela usados eliminem o que ela possui de mordaz, assim como temos cuidado de adoçar um dia duro demais; do contrário, desencorajados por companheiros amargos, que tratam as menores coisas como um crime, iremos nos lançar nos braços de bajuladores para ali procurar uma sombra doce e agradável."
(Plutarco)