"Estou com um vestido de seda natural, bastante surrado, quase transparente. Foi de minha mãe, certo dia ela achou que era claro demais e me deu. É um vestido sem mangas, muito decotado. Tem a cor arroxeada da seda natural muito usada. Uso-o com um cinto de couro, talvez de um dos meus irmãos. Não me lembro dos sapatos que usei naquele ano, apenas de alguns vestidos. Quase sempre estou de sandálias de lona, com os pés à vontade. Falo do tempo que antecedeu o colégio de Saigon. Depois que entrei no colégio, naturalmente sempre andei de sapatos. Naquele dia devia estar com aquele famoso par de saltos altos de lamé dourado. Não me lembro de nenhum outro que pudesse estar usando naquele dia, portanto, é com eles que estou calçada. Saltos de liquidação comprados por minha mãe. (...) Não posso conceber-me sem aquele par de sapatos e ainda agora me quero com eles, os saltos, os primeiros da minha vida, são lindos, eclipsaram todos os sapatos que tive antes, sapatos para correr e brincar, baixos de lona branca.
Porém, não são os sapatos que dão a nota insólita, estranha à figura de menina naquele dia. O que há de inusitado naquele dia é o chapéu de homem em sua cabeça, com abas caídas, de feltro cor-de-rosa com larga fita preta (...) "


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