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22 de ago. de 2013

o nada ou à espera

"Você abre a boca. Abre tanto que as mandíbulas chegam a estalar. Manda que os pulmões puxem o ar, AGORA; você está precisando de ar, precisando AGORA. Mas as suas vias respiratórias ignoram o seu comando. Entram em colapso, se estreitam, se contraem e, de repente, você está respirando através de um canudinho de refrigerante. A sua boca se fecha e seus lábios se enrugam, e tudo que você consegue fazer é soltar um som rouco, estrangulado. As suas mãos tremem e se contorcem. Em algum lugar, as comportas se abriram e uma enxurrada de suor frio transborda, encharcando todo o seu corpo. Você quer gritar. Gritaria, se pudesse. Mas, para gritar, é preciso respirar.Pânico."

"Tinha sido apenas um sorriso, e nada mais. As coisas não iam se ajeitar por causa disso. Aliás, nada ia se ajeitar por causa disso. Só um sorriso. Um sorriso minúsculo. Uma folhinha em um bosque, balançando com o movimento de um pássaro que alça vôo. Mas me agarrei àquilo. Com os braços bem abertos. (...) Saí correndo, com o vento batendo no rosto e um sorriso tão grande quanto o vale do Panjsher nos lábios. (...)"

(Khaled Hosseini. O caçador de pipas)

18 de mar. de 2011

Tenho uma folha branca           
                 e limpa à minha espera: 
mudo convite  


tenho uma cama branca
                e limpa à minha espera:


mudo convite
tenho uma vida branca
           e limpa à minha espera:
(Ana Cristina César)

13 de jan. de 2011

"apaixone-se pelo vento que bate em seu rosto, pelo som das palmeiras, pela música que lembra alguém, pelo abraço do seu amigo, por um beijo do seu namorado, por um animal sem dono, pela forma de falar de alguém, por um momento da sua vida, por uma lembrança, por uma viagem, por uma palavra melhor, pelas tardes gastas conversando com a sua melhor amiga, pela sua rotina e pelas fugas que acontecem, se apaixone pelos seus sonhos e pelas coisas que você não pode fazer ainda, pra que possa aprendê-las mais tarde, apaixone-se pelo jeito das pessoas e pelos bons atos que elas têm, apaixone-se pelos seus pais e irmãos cada dia mais, apaixone-se pelos filhos que você tem ou que planeja, pelas cores do pôr-do-sol e pelo mistério do arco-íris, pela sua vida e por cuidar da vida de alguém, apaixone-se pelas coisas simples da vida e apaixone-se por simplificar as complicadas, apaixone-se pelos valores incalculáveis que passam por você e que você nem percebe."
(Helena Chermont)

19 de set. de 2010

"Não faço perguntas.
Tenho medo das respostas que já sei.
Liberta do invólucro físico
Devolverei a matéria ao pó de que fora feito.


Vivi meus três caminhos na terra.
Purgatório. Inferno. Céu.
Tudo de acordo com meus projetos,
Minhas atitudes,
Procurando não cair nos mesmos erros.


Agora — vago e espero
Entre tropeços e flagelos
O ressurgir da verdade."
(R. Tagore)

18 de ago. de 2010

Lista de preferências

"Alegrias, as desmedidas.
Dores, as não curtidas.
Casos, os inconcebíveis.
Conselhos, os inexegüíveis.
Meninas, as Veras.
Mulheres, as insinceras.
Orgasmos, os múltiplos.
Ódios, os mútuos.
Domicílios, os passageiros.
Adeuses, os bem ligeiros.
Artes, as não rentáveis.
Professores, os enterráveis.
Prazeres, os transparentes.
Projetos, os continentes.
Inimigos, os delicados.
Amigos, os estouvados.
Cores, o rubro.
Meses, o outubro.
Elementos, os fogos.
Divindades, o logos.
Vidas, as espontâneas.
Mortes, as instantâneas."
(Bertold Brecht)

23 de jun. de 2010

            Encha sua taça até a borda
     E ela transbordará.
       Continue afiando a sua faca
   E ela perderá o fio.
        Corra atrás de dinheiro e segurança
         E o seu  coração jamais se abrirá.
           Busque a aprovação dos outros
          E será eternamente prisioneiro deles.
           Faça o que tem de fazer e depois esqueça.
                Este é o único caminho para a serenidade.  
                                                                        ( Lao-Tsé)

13 de nov. de 2009

E, como era de um costume meu,
sentei no capim, para ver o resto do sol se esconder.
E, por causa do cheiro da terra, a mulher
(caroço de manga) deitou-se e sonhou...
Estava plantada, com corpo caroço de manga.
Nasceu. Cana caiana, adocicada.
Dançava com os gestos da brisa,
lambida toda
do verde canavial.
Só que tinha os olhos tristes,
molhados, e não era de orvalho,
pois que eram lágrimas.
Seria levada à moenda,
em carro de boi, de boi de canga,
e lá, espremida, esbagaçada,
dela o que restaria?
Só bagaço? Não! Veriam:
o seu caldo teria os gostos,
vez do caju,
vez do araçá,
vez da pitanga!

(Rita Brennand)

23 de jun. de 2008

Ísis
E diz-me a desconhecida:
"Mais depressa! Mais depressa!
"Que eu vou te levar a vida! . . .

"Finaliza! Recomeça!
"Transpõe glórias e pecados! . . ."
Eu não sei que voz seja essa

Nos meus ouvidos magoados:
Mas guardo a angústia e a certeza
De ter os dias contados . . .

Rolo, assim, na correnteza
Da sorte que se acelera,
Entre margens de tristeza,

Sem palácios de quimera,
Sem paisagens de ventura,
Sem nada de primavera . . .

Lá vou, pela noite escura,
Pela noite de segredo,
Como um rio de loucura . . .

Tudo em volta sente medo . . .
E eu passo desiludida,
Porque sei que morro cedo . . .

Lá me vou, sem despedida . . .
Às vezes, quem vai, regressa . . .
E diz-me a Desconhecida:

"Mais depressa" Mais depressa" . . .
(Cecília Meireles)

1 de abr. de 2008

Poema
Senhora de muito espanto,
vestindo coisas longínquas
e alguns farrapos de sono,

eu vim para te dizer
que inutilmente contemplo
na planície de teus olhos
o incêndio do meu orgulho.

Senhora de muito espanto,
sentada além do crepúsculo
e perfeitamente alheia
a realejos e manhãs.

Eu vim para te mostrar
que se inaugurou um abismo
vertical e indefinido
que vai do meu lábio arguto
ao chumbo do teu vestido.

Senhora de muito espanto
e alguns farrapos de sono,
onde o céu é coisa gasta
que ao meu gesto se confunde.

Um dia perdi teu corpo
nas cores do mapa-múndi.

(Carlos Pena Filho)

5 de mar. de 2008

Água, água

Água, água

Menina sublunar, afogada,
que voz de prata te embala
toda desfolhada?

Tendo como um só adorno
o anel de seus vestidos,
ela própria é quem se encanta
numa canção de acalanto
presa ainda na garganta.

(Olga Savary)

21 de fev. de 2008

Verde que te quiero verde.

Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar
y el caballo en la montaña.
Con la sombra en la cintura
ella sueña en su baranda
verde carne, pelo verde.
Bajo la luna gitana,
las cosas la están mirando
y ella no pude mirarlas.

Verde que te quiero verde.
Grandes estrellas de escarcha,
vienen con el pez de sombra
que abre el camino del alba.
(...)
(Federico Garcia Lorca)

Soneto do Desmantelo Azul

Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas,

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.
(Carlos Pena Filho)