1 de out. de 2008

...infalivelmente.

"Não, essa história de violino não é exatamente o que eu penso" - refletiu Bertha Young, subindo a escada a correr, apalpando a bolsa à procura da chave - que tinha esquecido, como de costume - e sacudindo com ruído a caixa das cartas - "Não é o que eu penso, porque - "Obrigada, Mary" - entrou no hall. - "A nurse voltou?"

-Voltou, sim, senhora.

-E as frutas, vieram?.

-Vieram, sim senhora. Veio tudo.

-Traze as frutas para cá, sim? Quero arranjá-las antes de subir.

Fazia lusco-fusco na sala de jantar e estava bastante fresco. Mas mesmo assim Bertha tirou o casaco; não podia tolerar por mais tempo sua pressão; o ar frio caiu-lhe sobre os braços.

Em seu peito porém havia ainda aquela zona fulgurante e ardente - que emitia o chuveiro de minúsculas faíscas. Era quase insuportável. Ela mal ousava respirar com medo de avivar mais o fogo com seu sopro, e no entanto respirava, profundamente... Mal se aventurava a olhar para o espelho frio - mas olhou, e ele lhe mostrou a imagem de uma mulher radiante, de lábios trêmulos e sorridentes, com grandes olhos escuros e um ar de quem espera que aconteça alguma coisa... alguma coisa divina... que ela sabe que deve acontecer... infalivelmente."

(Trecho de Felicidade, de Katherine Mansfield)



(Berthe Morisot, The Cheval Glass, 1876)

Dos meus preferidos













26 de jun. de 2008


Sentia-se muito jovem; e, ao mesmo tempo, indizivelmente velha. Passava como uma navalha através de tudo; e ao mesmo tempo ficava de fora, olhando. Tinha a perpétua sensação, enquanto olhava os carros, de estar fora, longe e sozinha no meio do mar; sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fosse. (...) Oh! Se pudesse viver de novo! Pensou, ao pisar a rua, como não havia de ser diferente! (...)" (Mrs. Dalloway, Virginia Woolf)
( A ninfa. Fotografia de John Cimon Warburg)

"Pois logo a mim, tão cheia de garras e sonhos, coubera arrancar de seu coração a flecha farpada. De chofre explicava-se para que eu nascera com mão dura, e para que eu nascera sem nojo da dor.
Para que te servem essas unhas longas?
Para te arranhar de morte e para arrancar os teus espinhos mortais, responde o lobo do homem. Para que te serve essa cruel boca de fome?
Para te morder e para soprar a fim de que eu não te doa demais, meu amor, já que tenho que te doer, eu sou o lobo inevitável pois a vida me foi dada.
Para que te servem essas mãos que ardem e prendem?
Para ficarmos de mãos dadas, pois preciso tanto, tanto, tanto - uivaram os lobos e olharam intimidados as próprias garras antes de se aconchegarem um no outro para amar e dormir. " (Clarice Lispector)