9 de jul. de 2010

"Isso faz 24 anos, e, mesmo assim, sempre que penso naquele momento em que, chicoteada pela ironia dele, fiquei exposta diante de mil pessoas estranhas, ainda sinto o sangue congelar nas veias. E volto a sentir, assustada, uma substância fraca, rala e gelatinosa que deve existir, isso que fanfarronando chamamos alma, espírito, emoção, o que chamamos dores, pois tudo isso, mesmo desmedido, não consegue rebentar inteiramente o corpo torturado - porque a gente supera essas horas com o sangue que continua a pulsar, em vez de morrer e tombar como uma árvore atingida por um raio. Só por um instante essa dor atravessou minhas juntas, fazendo-me cair sobre aquele banco sufocada, embotada e com uma sensação quase prazerosa de ter de morrer. Mas, como acabei de dizer, toda dor é covarde, recua diante do chamado mais forte da vida, mais solidamente instalada em nossa carne do que toda a paixão que nosso espírito possa ter pela morte. Eu mesma não entendo, depois de ter esmagados os meus sentimentos: mas sim, eu me levantei de novo, naturalmente sem saber o que fazer."
( Stefan Zweig, 24 horas na vida de uma mulher)
''E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder:
- É a hora da embriaguez! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas! De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.''
(Charles Baudelaire)