“Até então ele havia procurado mantê-la alheia às misérias irreparáveis, à injustiça e à repressão que diariamente presenciava e eram temas de conversa habituais entre os Leal. Considerava extraordinário que Irene navegasse inocente nesse mar de escolhos que afogava o país, ocupada somente com o pitoresco e o anedótico. Surpreendia-se ao vê-la pairando, sem se poluir no ar de suas boas intenções. Esse injustificado otimismo, essa limpa e fresca vitalidade de sua amiga revelavam-se balsâmicos para os tormentos que ele padecia por não poder mudar as coisas. Nesse dia, entretanto, teve a tentação de pegá-la pelos ombros e sacudi-la até pôr seus pés na terra e lhe abrir os olhos para a verdade. Mas ao contemplá-la junto ao muro de pedra de sua casa, com os braços carregados de flores silvestres para seus velhos e o cabelo revolto pela viagem na moto, intuiu que essa criatura não fora feita para as realidades sórdidas. Beijou-a na face o mais próximo possível da boca, desejando com paixão permanecer ao seu lado eternamente para protegê-la das sombras. Cheirava a ervas e tinha a pele fria. Soube que amá-la era seu destino inexorável”
(Isabel Allende, De amor e de sombra)
(John Wiliam Waterhouse, Psyche Entering Cupids Garden, 1905)
