25 de fev. de 2011

"(...) aqui termino a história de Leniza.
Não a abandonei, mas como romancista, perdi-a. Fico, porém, quantas vezes, pensando nessa pobre alma tão fraca e miserável quanto a minha. Tremo: que será dela, no inevitável balanço da vida, se não descer do céu uma luz que ilumine o outro lado das suas vaidades?"
( Marques Rebêlo, A estrela sobe)
 



22 de fev. de 2011

22 de jan. de 2011

Não..



"Não confie em ninguém com mais de trinta cruzeiros
O professor tem mais de trinta conselhos
Mas ele tem mais de trinta, oh mais de trinta

Não confie em ninguém com mais de trinta ternos
Não acredite em ninguém com mais de trinta vestidos
O diretor quer mais de trinta minutos
Pra dirigir sua vida, a sua vida

Eu meço a vida nas coisas que eu faço
E nas coisas que eu sonho e não faço
Eu me desloco no tempo e no espaço
Passo a passo, faço  mais um traço
Faço mais um passo, traço a traço

Sou prisioneiro do ar poluído
O artigo trinta eu conheço de ouvido
Eu me desloco  no tempo e no espaço
Na fumaça um mundo novo faço 
Faço um novo mundo na fumaça

"Hoje, nesta ilha...

"Hoje, nesta ilha, aconteceu um milagre: o verão se adiantou. Trouxe a cama para perto da piscina e tomei banho até bem tarde. Era impossível dormir. Dois ou três minutos fora bastavam para converter em suor a água que devia me proteger da espantosa calmaria. De madrugada, um gramofone me despertou. Não pude voltar ao museu para buscar as coisas. Fugi pelos barrancos. Estou nos baixios do sul, entre plantas aquáticas, indignado pelos mosquitos, com mar ou córregos imundos até a cintura, percebendo que antecipei absurdamente minha fuga. Acredito que aquela gente não veio me procurar; talvez não tenham me visto. Mas sigo meu destino; estou desprovido de tudo, confinado ao lugar mais parco, menos habitável da ilha, a pântanos que o mar suprime uma vez por semana.Escrevo isto para deixar testemunho do adverso milagre. Se em poucos dias não morrer afogado ou lutando por minha liberdade, espero escrever a Defesa perante sobreviventes e um Elogio de Malthus. Atacarei, nessas páginas, os devastadores das selvas e dos desertos; demonstrarei que o mundo, com o aperfeiçoamento das polícias, dos documentos, da imprensa, da radiotelefonia, das alfândegas, torna irreparável qualquer erro da justiça, é um inferno unânime para os perseguidos.Até agora não pude escrever nada senão esta folha que ontem eu não previa."
(A Invenção de Morel, Adolfo Bioy Casares)