22 de jan. de 2011

Não..



"Não confie em ninguém com mais de trinta cruzeiros
O professor tem mais de trinta conselhos
Mas ele tem mais de trinta, oh mais de trinta

Não confie em ninguém com mais de trinta ternos
Não acredite em ninguém com mais de trinta vestidos
O diretor quer mais de trinta minutos
Pra dirigir sua vida, a sua vida

Eu meço a vida nas coisas que eu faço
E nas coisas que eu sonho e não faço
Eu me desloco no tempo e no espaço
Passo a passo, faço  mais um traço
Faço mais um passo, traço a traço

Sou prisioneiro do ar poluído
O artigo trinta eu conheço de ouvido
Eu me desloco  no tempo e no espaço
Na fumaça um mundo novo faço 
Faço um novo mundo na fumaça

"Hoje, nesta ilha...

"Hoje, nesta ilha, aconteceu um milagre: o verão se adiantou. Trouxe a cama para perto da piscina e tomei banho até bem tarde. Era impossível dormir. Dois ou três minutos fora bastavam para converter em suor a água que devia me proteger da espantosa calmaria. De madrugada, um gramofone me despertou. Não pude voltar ao museu para buscar as coisas. Fugi pelos barrancos. Estou nos baixios do sul, entre plantas aquáticas, indignado pelos mosquitos, com mar ou córregos imundos até a cintura, percebendo que antecipei absurdamente minha fuga. Acredito que aquela gente não veio me procurar; talvez não tenham me visto. Mas sigo meu destino; estou desprovido de tudo, confinado ao lugar mais parco, menos habitável da ilha, a pântanos que o mar suprime uma vez por semana.Escrevo isto para deixar testemunho do adverso milagre. Se em poucos dias não morrer afogado ou lutando por minha liberdade, espero escrever a Defesa perante sobreviventes e um Elogio de Malthus. Atacarei, nessas páginas, os devastadores das selvas e dos desertos; demonstrarei que o mundo, com o aperfeiçoamento das polícias, dos documentos, da imprensa, da radiotelefonia, das alfândegas, torna irreparável qualquer erro da justiça, é um inferno unânime para os perseguidos.Até agora não pude escrever nada senão esta folha que ontem eu não previa."
(A Invenção de Morel, Adolfo Bioy Casares)

18 de jan. de 2011

Seize the day

do filme Paris, de Cedric Klapisch:
 

Hold them close
Petals of a rose
Thorns as well
Friends and foes
Have no fear

Seize the day

I don’t mind whatever happens
I don’t care whatever happens

Let them burn

Things of cotton
Admire the fire
Things undone
There’s applause
There’ll be encores
You’re sincere
That’s what we’re
Have no fear




sempre Kundera

"No entanto, desta vez, adormeceu ao lado dela. De manhã percebeu que Tereza, que ainda dormia, segurava sua mão. Teriam ficado de mãos dadas a noite inteira? Era difícil de acreditar. Ela respirava profundamente enquanto dormia, segurava sua mão (com força: ele não conseguia se desvencilhar da pressão) e a pesadissima mala estava ao lado da cama. Não ousava soltar a mão do seu aperto, por temer acordá-la, e virou-se com muito cuidado para observá-la mais à vontade. Mais uma vez, ocorreu-lhe que Tereza era uma criança posta numa cesta untada com resina e abandonada ao sabor da corrente. Como deixar derivar para as águas impetuosas de um rio a cesta onde se abriga uma criança? Se a filha do Faraó não tivesse retirado das águas a cesta do pequeno Moisés, não teria havido o Velho Testamento e toda a nossa civilização! No começo de tantos mitos antigos, existe sempre alguém que salva uma criança abandonada. Se Pólibo não tivesse recolhido o pequeno Édipo, Sófocles não teria escrito sua mais bela tragédia! Tomas compreendeu então que as metáforas são perigosas. Não se brinca com as metáforas. O amor pode nascer de uma simples metátora.
(Milan Kundera, A insustentável leveza do ser)

(imagem do longa, com Juliette Binoche)