
(Kandinsky, Der Blaue Reiter, 1903)
"Acontecia-lhe algo estranho... O seu pescoço, que um instante atrás fora envolvido por braços macios, cheirosos, parecia-lhe untado com manteiga; sobre a face junto ao bigode esquerdo, onde fora beijado pela desconhecida, tremia um friozinho ligeiro, agradável, como gotas de menta, e quanto mais ele esfregava esse lugar, tanto mais fortemente sentia o friozinho, e todo ele, da cabeça aos pés, estava repleto de um sentimento novo, estranho, que não cessava de crescer...Teve vontade de dançar, falar, correr para o jardim, rir alto...Esqueceu-se completamente de que era curvado e incolor, tinha suiças de lince e um 'fisico indefinido' (assim se descrevera o seu aspecto exterior numa conversa de senhoras, que ele ouvira sem querer). Quando a mulher de Rabbek passou ao lado, ele sorriu-lhe tão larga e carinhosamente que ela se deteve e olhou-o com ar interrogador.
(...)
E o mundo inteiro, a vida toda, pareceu a Riabóvitch uma brincadeira incompreensível, sem objetivo...Mas, afastando os olhos da água e olhando o céu, lembrou novamente como o destino, na pessoa de uma mulher desconhecida, acarinhara-o sem querer, lembrou seus devaneios e imagens de verão, e a vida que levava pareceu-lhe tosca, miserável, incolor..."
(Trechos de O beijo, um dos meus preferidos)