6 de ago. de 2010

Florentino

   "A partir das sete da manhã se sentava sozinho no banco menos visível da praça, fingindo ler um livro de versos à sombra das amendoeiras, até que via passar a donzela impossível com o uniforme de listras azuis.
Florentino Ariza a via passar de ida e volta quatro vezes por dia, e uma vez aos domingos à saída da missa solene, e ver a menina lhe bastava. Pouco a pouco a foi idealizando, atribuindo-lhe virtudes improváveis, sentimentos imaginários, e ao fim de duas semanas a única coisa em que pensava era ela. Por isso, resolveu mandar-lhe um recado simples escrito dos dois lados de uma folha de papel com sua caprichada letra de escrivão. 
Mas a guardou vários dias no bolso, pensando em como entregá-la, e enquanto pensava  escrevia várias páginas mais antes de se deitar, de modo que a carta original foi virando um dicionário de galanteios, inspirado nos livros que havia decorado de tanto lê-los nas esperas da praça.
   A carta tinha mais de sessenta páginas escritas dos dois lados quando Florentino Ariza não pôde resistir mais à opressão do seu segredo, e se abriu sem reservas à mãe, a única pessoa com quem se permitia algumas confidencias. 
Trânsito Ariza se comoveu até as lágrimas com a candura do filho em assuntos de amor, e tratou de orientá-lo com suas luzes. Começou por convencê-lo a não entregar seu cartapácio lírico, com o qual só conseguiria assustar a menina dos seus sonhos, que supunha tão verde quanto ele nos negócios do coração. 
O primeiro passo, lhe disse, era fazer com que ela se desse conta do seu interesse, para que a declaração não a pegasse de supetão e ela tivesse tempo de pensar."
(Gabriel Garcia Marquez, O Amor no Tempo do Cólera)

                                 (Gauguin, Swineherd)

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