26 de dez. de 2010

"Ele ficou me encarando por um bom momento. Estávamos sentados ali, dois meninos debaixo de uma cerejeira, e, de repente, nos olhávamos, olhávamos de verdade. Foi então que aconteceu de novo: o rosto de Hassan mudou. Talvez não tenha mudado, não para valer, mas, de repente, tive a sensação de estar olhando para dois rostos: um deles, o que eu conhecia, aquele que era minha lembrança mais remota; e o outro, o segundo rosto, era o que estava escondido logo abaixo da superfície. Já tinha visto isso acontecer antes e aquilo sempre me deixava um pouco atordoado. Esse outro rosto só aparecia por uma fração de segundo, mas isso era o bastante para me deixar com a pertubadora sensação de que talvez o tivesse visto em algum lugar. Então, Hassan piscava e voltava a ser ele mesmo. Simplesmente Hassan."
( Khaled Hosseini, in O Caçador de Pipas)

25 de dez. de 2010

The Lover


"Estou com um vestido de seda natural, bastante surrado, quase transparente. Foi de minha mãe, certo dia ela achou que era claro demais e me deu. É um vestido sem mangas, muito decotado. Tem a cor arroxeada da seda natural muito usada. Uso-o com um cinto de couro, talvez de um dos meus irmãos. Não me lembro dos sapatos que usei naquele ano, apenas de alguns vestidos. Quase sempre estou de sandálias de lona, com os pés à vontade. Falo do tempo que antecedeu o colégio de Saigon. Depois que entrei no colégio, naturalmente sempre andei de sapatos. Naquele dia devia estar com aquele famoso par de saltos altos de lamé dourado. Não me lembro de nenhum outro que pudesse estar usando naquele dia, portanto, é com eles que estou calçada. Saltos de liquidação comprados por minha mãe. (...) Não posso conceber-me sem aquele par de sapatos e ainda agora me quero com eles, os saltos, os primeiros da minha vida, são lindos, eclipsaram todos os sapatos que tive antes, sapatos para correr e brincar, baixos de lona branca.
Porém, não são os sapatos que dão a nota insólita, estranha à figura de menina naquele dia. O que há de inusitado naquele dia é o chapéu de homem em sua cabeça, com abas caídas, de feltro cor-de-rosa com larga fita preta (...) "
(Marguerite Duras, O Amante)

24 de dez. de 2010

No jogo dos búzios e nas profecias


Nos dias de hoje é bom que se proteja
Ofereça a face a quem quer que seja
Nos dias de hoje, esteja tranquilo
Haja o que houver pense nos seus filhos
Não ande nos bares, esqueca os amigos
Não pare nas praças, não corra perigos
Não fale do medo que temos da vida
Não ponha o dedo na nossa ferida
Nos dias de hoje, não lhes dê motivo
Porque na verdade eu te quero vivo
Tenha paciência, Deus está contigo
Deus está conosco até o pescoco
Já está escrito, já está previsto
Por todas as videntes, pelas cartomantes
tá tudo nas cartas, em todas as estrelas
No jogo dos búzios e nas profecias
Cai o rei de espadas
Cai o rei de ouros
Cai o rei de paus
Cai, não fica nada!

22 de dez. de 2010

Denis e Anastasia Matvienko- Romeo and Juliet


Like Spinning Plates (Radiohead)

While you make pretty speeches
I'm being cut to shreds
You feed me to the lions
A delicate balance

And this just feels like spinning plates
I'm living in cloud cuckoo land
And this just feels like spinning plates
Our bodies floating down the muddy river

21 de dez. de 2010

Calma!!

"CALMA, calma, também tudo não é assim escuridão e morte. Calma. Não é assim? Uma vez um menininho foi colher crisântemos perto da fonte, numa manhã de sol. Crisântemos? É, esses polpudos amarelos. Perto da fonte havia um rio escuro, dentro do rio havia um bicho medonho. Aí o menininho viu um crisântemo partido, falou ai, o pobrezinho está se quebrando todo, ai caiu dentro da fonte, ai vai andando pro rio, ai ai ai caiu no rio, eu vou rezar, ele vem até a margem, aí eu pego ele. Acontece que o bicho medonho estava espiando e pensou oi, o menininho vai pegar o crisântemo, oi que bom vai cair dentro da fonte, oi ainda não caiu, oi vem andando pela margem do rio, oi que bom bom vou matar a minha fome, oi é agora, eu vou rezar e o menininho vem pra minha boca. Oi veio. Mastigo, mastigo. Mas pensa, se você é o bicho medonho, você só tem que esperar menininhos nas margens do teu rio e devorá-los, se você é o crisântemo polpudo e amarelo, você só pode esperar ser colhido, se você é o menininho, você tem que ir sempre à procura do crisântemo e correr o risco. De ser devorado. Oi ai. Não há salvação."
(HILST, Hilda. Fluxo-floema.)

11 de dez. de 2010

"Se você me perguntar como é a gente daqui, serei forçado a responder: "A mesma de toda parte". Como a espécie humana é uniforme! A maioria sofre durante quase todo o seu tempo, apenas para poder viver, e os poucos lazeres que lhe restam são de tal modo cheios de preocupações, que ela procura todos os meios de aliviá-las. Oh, destino do homem!

Apesar disso, são excelentes pessoas. Muitas vezes chego a esquecer-me de mim mesmo para participar, com elas, dos prazeres acessíveis às criaturas humanas: uma alegre reunião em torno da mesa modestamente servida, onde reina a cordialidade mais franca; uma excursão de carro, um bailezinho improvisado etc. Sinto muito bem nesse meio, contanto que não me lembre de um mundo de aspirações adormecidas no mais íntimo do meu ser, entorpecendo-se pela inação, e que eu preciso ocultar com todo o cuidado. Ah! Como isso me aperta o coração! E, no entanto, ser incompreendido é o destino de todos aqueles que se parecem comigo." 

(Goethe, Os sofrimentos do jovem Werther)