23 de nov. de 2008

15 de out. de 2008

Plumeria

Depois do ipê-rosa em julho, do ipê-amarelo em agosto e do jacarandá-mimoso lilás em setembro, é a vez da plumeria florescer. .







Plumerias em vários tons.

1 de out. de 2008

...infalivelmente.

"Não, essa história de violino não é exatamente o que eu penso" - refletiu Bertha Young, subindo a escada a correr, apalpando a bolsa à procura da chave - que tinha esquecido, como de costume - e sacudindo com ruído a caixa das cartas - "Não é o que eu penso, porque - "Obrigada, Mary" - entrou no hall. - "A nurse voltou?"

-Voltou, sim, senhora.

-E as frutas, vieram?.

-Vieram, sim senhora. Veio tudo.

-Traze as frutas para cá, sim? Quero arranjá-las antes de subir.

Fazia lusco-fusco na sala de jantar e estava bastante fresco. Mas mesmo assim Bertha tirou o casaco; não podia tolerar por mais tempo sua pressão; o ar frio caiu-lhe sobre os braços.

Em seu peito porém havia ainda aquela zona fulgurante e ardente - que emitia o chuveiro de minúsculas faíscas. Era quase insuportável. Ela mal ousava respirar com medo de avivar mais o fogo com seu sopro, e no entanto respirava, profundamente... Mal se aventurava a olhar para o espelho frio - mas olhou, e ele lhe mostrou a imagem de uma mulher radiante, de lábios trêmulos e sorridentes, com grandes olhos escuros e um ar de quem espera que aconteça alguma coisa... alguma coisa divina... que ela sabe que deve acontecer... infalivelmente."

(Trecho de Felicidade, de Katherine Mansfield)



(Berthe Morisot, The Cheval Glass, 1876)

Dos meus preferidos













26 de jun. de 2008


Sentia-se muito jovem; e, ao mesmo tempo, indizivelmente velha. Passava como uma navalha através de tudo; e ao mesmo tempo ficava de fora, olhando. Tinha a perpétua sensação, enquanto olhava os carros, de estar fora, longe e sozinha no meio do mar; sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fosse. (...) Oh! Se pudesse viver de novo! Pensou, ao pisar a rua, como não havia de ser diferente! (...)" (Mrs. Dalloway, Virginia Woolf)
( A ninfa. Fotografia de John Cimon Warburg)

"Pois logo a mim, tão cheia de garras e sonhos, coubera arrancar de seu coração a flecha farpada. De chofre explicava-se para que eu nascera com mão dura, e para que eu nascera sem nojo da dor.
Para que te servem essas unhas longas?
Para te arranhar de morte e para arrancar os teus espinhos mortais, responde o lobo do homem. Para que te serve essa cruel boca de fome?
Para te morder e para soprar a fim de que eu não te doa demais, meu amor, já que tenho que te doer, eu sou o lobo inevitável pois a vida me foi dada.
Para que te servem essas mãos que ardem e prendem?
Para ficarmos de mãos dadas, pois preciso tanto, tanto, tanto - uivaram os lobos e olharam intimidados as próprias garras antes de se aconchegarem um no outro para amar e dormir. " (Clarice Lispector)


(Monet, Camille on the Beach, 1870)


(Lawrence Stephen Lowry, The fever van, 1935)

23 de jun. de 2008

Ísis
E diz-me a desconhecida:
"Mais depressa! Mais depressa!
"Que eu vou te levar a vida! . . .

"Finaliza! Recomeça!
"Transpõe glórias e pecados! . . ."
Eu não sei que voz seja essa

Nos meus ouvidos magoados:
Mas guardo a angústia e a certeza
De ter os dias contados . . .

Rolo, assim, na correnteza
Da sorte que se acelera,
Entre margens de tristeza,

Sem palácios de quimera,
Sem paisagens de ventura,
Sem nada de primavera . . .

Lá vou, pela noite escura,
Pela noite de segredo,
Como um rio de loucura . . .

Tudo em volta sente medo . . .
E eu passo desiludida,
Porque sei que morro cedo . . .

Lá me vou, sem despedida . . .
Às vezes, quem vai, regressa . . .
E diz-me a Desconhecida:

"Mais depressa" Mais depressa" . . .
(Cecília Meireles)

22 de jun. de 2008

Foi então que apareceu a raposa.
- Olá, bom dia! - disse a raposa.
- Olá, bom dia! - respondeu educadamente o Principezinho.
- Quem és tu? - perguntou o Principezinho - És bem bonita...
- Sou uma raposa - disse a raposa.
- Anda brincar comigo - pediu-lhe o Principezinho. - Estou tão triste...
- Não posso ir brincar contigo - disse a raposa. - Ainda ninguém me cativou...
- Ah! Então desculpa! - disse o Principezinho
Mas pôs-se a pensar, a pensar, e acabou por perguntar:
- "Cativar" quer dizer o quê?

É uma coisa de que toda a gente se esqueceu - disse a raposa. - Quer dizer "criar laços"...
-Criar laços?
-Sim, laços - disse a raposa. - Ora vê: por enquanto tu não és mais para mim senão um rapazinho perfeitamente igual a cem mil outros rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto eu não sou para ti senão uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativares, passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E eu também passo a ser única no mundo para ti...

""Olá. Bom dia. Desculpe ...
A bola ...
... foram os miúdos ... atiraram-na, para o seu terraço ... desculpe.
Obrigada..."

(podia ser assim)"


18 de abr. de 2008

1 de abr. de 2008

Poema
Senhora de muito espanto,
vestindo coisas longínquas
e alguns farrapos de sono,

eu vim para te dizer
que inutilmente contemplo
na planície de teus olhos
o incêndio do meu orgulho.

Senhora de muito espanto,
sentada além do crepúsculo
e perfeitamente alheia
a realejos e manhãs.

Eu vim para te mostrar
que se inaugurou um abismo
vertical e indefinido
que vai do meu lábio arguto
ao chumbo do teu vestido.

Senhora de muito espanto
e alguns farrapos de sono,
onde o céu é coisa gasta
que ao meu gesto se confunde.

Um dia perdi teu corpo
nas cores do mapa-múndi.

(Carlos Pena Filho)

29 de mar. de 2008

Balanços



"Quem balança torna-se criança de novo. Razão por que eu acho um crime que, nas praças públicas, só haja balancinhos para crianças pequenas. Há-de haver balanços grandes para os grandes! Já imaginaram o pai e a mãe, o avô e a avó, balançando? Riram? Absurdo? Entendo. Vocês estão velhos. Têm medo do ridículo. O seu sonho fundamental está enterrado debaixo do cimento."

(Ruben Alves. Gaiolas ou asas)

5 de mar. de 2008

Água, água

Água, água

Menina sublunar, afogada,
que voz de prata te embala
toda desfolhada?

Tendo como um só adorno
o anel de seus vestidos,
ela própria é quem se encanta
numa canção de acalanto
presa ainda na garganta.

(Olga Savary)

21 de fev. de 2008

( Wassily Kandinsky, O Elefante, 1908)
(Picasso, Danseuse et Vieillard Musicien IV, 1954)
(Paul Gauguin, Pastorales Tahitiennes, 1893)
(Van Gogh, The Red Vineyard at Arles, c1888)
(Marc Chagall, The Three Candles, 1938-1940)
(Edgar Degas, Quatre Danseuses, 1899)
(Pierre Bonnard, Girl with Parrot, 1910)
(John Singer Sargent, Bedouins, 1905, Brooklyn Museum of Art, New York)
(Berthe Morisot, Campo de trigo, 1875, Museu de Orsay)
(Toulouse-Lautrec, La Toilette, 1889)
(O pós-impressionismo de Paul Gauguin. Nave Nave Moe -Sacred Spring-, 1894)

Verde que te quiero verde.

Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar
y el caballo en la montaña.
Con la sombra en la cintura
ella sueña en su baranda
verde carne, pelo verde.
Bajo la luna gitana,
las cosas la están mirando
y ella no pude mirarlas.

Verde que te quiero verde.
Grandes estrellas de escarcha,
vienen con el pez de sombra
que abre el camino del alba.
(...)
(Federico Garcia Lorca)
(Windflowers, 1903, do pré-rafaelita John William Waterhouse, nascido no mesmo dia e mês que eu )

Soneto do Desmantelo Azul

Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas,

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.
(Carlos Pena Filho)