12 de ago. de 2010
"Como a vida é um movimento rápido, um fluir contínuo, mutante, como estamos sempre a nos despedir, indo a lugares, vendo pessoas, fazendo coisas. Só na chuva, às vezes, só quando a chuva cai, limitando seu raio de atuação que já é desgraçadamente reduzido, só quando você senta e fica escutando ao lado da janela, enquanto o ar frio e úmido sopra suave na sua nuca – só aí você pensa e sente aflição. Sente o dia escorrer, esquivo como lisas minhocas rosadas, por entre os dedos, e você analisa o que tem aos dezoito anos, pensa no modo como consegue, com dificuldade e concentração, trazer de volta um dia, um dia de sol, céu azul e aquarelas à beira-mar.
Consegue se recordar das observações sensuais que tornam aquele dia real, e pode se iludir – quase – pensando que seria capaz de retornar ao passado e reviver os dias e horas num curto período. Que nada, a busca do tempo passado é mais difícil do que você pensa, e o tempo presente acaba devorado por essas buscas melancólicas.
O filme de seus dias e noites está enrolado dentro de você, bem apertado, para nunca mais ser passado – e os flashbacks ocasionais são vagos, desfocados, irreais, como se os visse através da neve que cai.
Agora você começa a ficar com medo. Não crê em Deus nem na vida após a morte, portanto não pode contar com o paraíso quando sua alma inexistente ascender. Você acredita que tudo precisa vir do homem, e o homem é bem criativo em seus bons momentos – muito maduro, muito perceptivo para a sua idade – quantos anos tem, agora? Quantos milhares de anos? Contudo, mesmo nesta era de especialização, de variedade e complexidade infinita e de uma miríade de escolhas, o que você pega para si no saco de surpresas? Gatos tem nove vidas, diz o ditado. Você tem uma; e nalgum ponto da fina linha tênue de sua existência há um nó cego, um coágulo, a batida suspensa que marca o final deste individuo em particular que se chama “Eu”, “Você” e “Sylvia”. Então você fica pensando em como agir, como ser – e você considera valores e atitudes.
No meio do relativismo e do desespero, esperando que as bombas comecem a cair, que o sangue corra (como corre agora no Iraque, no Afeganistão, na Rússia) e escorra bem na frente dos seus olhos, você quer saber (...) como se agarrar à terra, às sementes da relva e da vida."
Consegue se recordar das observações sensuais que tornam aquele dia real, e pode se iludir – quase – pensando que seria capaz de retornar ao passado e reviver os dias e horas num curto período. Que nada, a busca do tempo passado é mais difícil do que você pensa, e o tempo presente acaba devorado por essas buscas melancólicas.
O filme de seus dias e noites está enrolado dentro de você, bem apertado, para nunca mais ser passado – e os flashbacks ocasionais são vagos, desfocados, irreais, como se os visse através da neve que cai.
Agora você começa a ficar com medo. Não crê em Deus nem na vida após a morte, portanto não pode contar com o paraíso quando sua alma inexistente ascender. Você acredita que tudo precisa vir do homem, e o homem é bem criativo em seus bons momentos – muito maduro, muito perceptivo para a sua idade – quantos anos tem, agora? Quantos milhares de anos? Contudo, mesmo nesta era de especialização, de variedade e complexidade infinita e de uma miríade de escolhas, o que você pega para si no saco de surpresas? Gatos tem nove vidas, diz o ditado. Você tem uma; e nalgum ponto da fina linha tênue de sua existência há um nó cego, um coágulo, a batida suspensa que marca o final deste individuo em particular que se chama “Eu”, “Você” e “Sylvia”. Então você fica pensando em como agir, como ser – e você considera valores e atitudes.
No meio do relativismo e do desespero, esperando que as bombas comecem a cair, que o sangue corra (como corre agora no Iraque, no Afeganistão, na Rússia) e escorra bem na frente dos seus olhos, você quer saber (...) como se agarrar à terra, às sementes da relva e da vida."
(O Diario De Sylvia Plath - Sylvia Plath, 15 de julho de 1951)
6 de ago. de 2010
Florentino
"A partir das sete da manhã se sentava sozinho no banco menos visível da praça, fingindo ler um livro de versos à sombra das amendoeiras, até que via passar a donzela impossível com o uniforme de listras azuis.
Florentino Ariza a via passar de ida e volta quatro vezes por dia, e uma vez aos domingos à saída da missa solene, e ver a menina lhe bastava. Pouco a pouco a foi idealizando, atribuindo-lhe virtudes improváveis, sentimentos imaginários, e ao fim de duas semanas a única coisa em que pensava era ela. Por isso, resolveu mandar-lhe um recado simples escrito dos dois lados de uma folha de papel com sua caprichada letra de escrivão.
Mas a guardou vários dias no bolso, pensando em como entregá-la, e enquanto pensava escrevia várias páginas mais antes de se deitar, de modo que a carta original foi virando um dicionário de galanteios, inspirado nos livros que havia decorado de tanto lê-los nas esperas da praça.
Mas a guardou vários dias no bolso, pensando em como entregá-la, e enquanto pensava escrevia várias páginas mais antes de se deitar, de modo que a carta original foi virando um dicionário de galanteios, inspirado nos livros que havia decorado de tanto lê-los nas esperas da praça.
A carta tinha mais de sessenta páginas escritas dos dois lados quando Florentino Ariza não pôde resistir mais à opressão do seu segredo, e se abriu sem reservas à mãe, a única pessoa com quem se permitia algumas confidencias.
Trânsito Ariza se comoveu até as lágrimas com a candura do filho em assuntos de amor, e tratou de orientá-lo com suas luzes. Começou por convencê-lo a não entregar seu cartapácio lírico, com o qual só conseguiria assustar a menina dos seus sonhos, que supunha tão verde quanto ele nos negócios do coração.
O primeiro passo, lhe disse, era fazer com que ela se desse conta do seu interesse, para que a declaração não a pegasse de supetão e ela tivesse tempo de pensar."
Trânsito Ariza se comoveu até as lágrimas com a candura do filho em assuntos de amor, e tratou de orientá-lo com suas luzes. Começou por convencê-lo a não entregar seu cartapácio lírico, com o qual só conseguiria assustar a menina dos seus sonhos, que supunha tão verde quanto ele nos negócios do coração.
O primeiro passo, lhe disse, era fazer com que ela se desse conta do seu interesse, para que a declaração não a pegasse de supetão e ela tivesse tempo de pensar."
(Gabriel Garcia Marquez, O Amor no Tempo do Cólera)
(Gauguin, Swineherd)
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